Doação de sangue autóloga: entenda tudo sobre a técnica. 29/11/2022

A doação de sangue é uma preocupação de interesse mundial. Ainda hoje, apesar das massivas campanhas de doação de sangue, os hemocentros enfrentam obstáculos com a falta de doadores de sangue, gerando consequências para pacientes que precisam deste recurso em alguma etapa do seu tratamento ou devido condição clínica1. Em 2019, apenas 1,7% da população brasileira doou sangue. Portanto, é de extrema importância que essa prática seja estimulada de várias formas2.

Dentre as várias maneiras de doação de sangue, podem-se destacar três formas:

 

Doação espontânea ou voluntária:

Realizada por pessoas motivadas para a doação de sangue;

Doação de reposição:

Feita por pessoas motivadas a atender à necessidade de transfusão de um determinado paciente;

Doação autóloga:

Onde o próprio doador do sangue também é seu receptor1.

Apesar de ser pouco evidenciada, a doação autóloga atrai atenção devido à segurança da transfusão de sangue e ao problema da escassez de bolsas de sangue 3.

 

Doação autóloga x Doação alogênica

As transfusões e doações de sangue podem ser classificadas de várias formas. Uma dessas formas é a classificação entre doação autóloga e alogênica. A doação alogênica é a mais habitual, ocorre quando doador do sangue e receptor do sangue são indivíduos diferentes.

E a doação autóloga ocorre quando doador e receptor são o mesmo indivíduo4.

Assim como as doações alogênicas, as autólogas devem ser submetidas a testes imuno-hematológicos e testes para detecção de infecções transmissíveis pelo sangue. O sangue coletado para uso autólogo é segregado apenas para transfusão autóloga. Não se pode migrar bolsas de componentes sanguíneos autólogos para uso alogênico4.

E diferentemente da doação alogênica, que preconiza um número máximo de doações em um intervalo de tempo, a frequência e o intervalo entre as doações autólogas devem ser programados de acordo com o protocolo aprovado pelo responsável técnico do serviço de hemoterapia4.

 

Quando realizar doação autóloga?

As doações autólogas ocorrem mediante a solicitação do médico assistente do paciente-doador e aprovação do médico hemoterapeuta. Elas podem ser necessárias em situações, como4:

  • Evitar reações transfusionais em pacientes portadores de aloanticorpos;
  • Dificuldade de obtenção de sangue compatível para um paciente em particular em curto período de tempo3;
  • Evitar complicações em pacientes com antecedentes de reações transfusionais graves3;
  • Evitar os riscos (infecciosos e imunológicos) da transfusão alogênica3;
  • Evitar que uma cirurgia seja adiada por de falta de sangue

Além disso, a doação autóloga sempre deve ser considerada naqueles pacientes em bom estado geral que serão submetidos a cirurgias eletivas. Nesses casos, colhe-se uma ou mais unidades de sangue total do paciente previamente a uma cirurgia eletiva. Entretanto, esse procedimento dependerá da solicitação do médico assistente e requer a aprovação também do médico hemoterapeuta4,5.

Existem também outros dois casos em que a doação de sangue autóloga pode ocorrer durante o processo cirúrgico, são eles: recuperação intraoperatória de sangue e hemodiluição normovolêmica4,5.

Na recuperação intraoperatória de sangue se utiliza um equipamento, chamado cell-saver, que aspira o sangue do campo operatório. Esse sangue é anticoagulado, centrifugado e lavado com solução fisiológica. E posteriormente pode ser novamente utilizado pelo paciente.

Já na hemodiluição normovolêmica se coleta uma ou mais unidades de sangue de um paciente no centro cirúrgico, imediatamente antes ou após a indução da anestesia, seguida da reposição simultânea de cristaloides ou coloides para manutenção da volemia. Essa técnica é utilizada quando há o potencial de perda sanguínea superior a 20% da volemia sanguínea e a concentração de hemoglobina for superior a 11 g/dL4,5.

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Contraindicações da doação autóloga

As transfusões autólogas, mesmo tendo o mesmo receptor e doador, não são isentas de riscos. Isso porque, apesar do sangue autólogo não transmitir doenças, pode sofrer contaminação durante seu manuseio entre a coleta no hemocentro e sua administração no centro cirúrgico. Entretanto, o risco ainda é menor quando comparado ao sangue homólogo4.

Por isso, é necessário ficar atento a algumas situações como condição clínica do doador, contaminação bacteriana do componente e sobrecarga volêmica. Dessa forma, a indicação de uma doação autóloga deve ser feita de forma criteriosa e possui contraindicações absolutas, como4:

 

  • Insuficiência cardíaca descompensada;
  • Estenose aórtica grave;
  • Angina pectoris instável;
  • Infarto do miocárdio nos últimos 6 meses;
  • Acidente vascular cerebral isquêmico nos últimos 6 meses;
  • Alto grau de obstrução da artéria coronária esquerda;
  • Cardiopatia cianótica;
  • Presença de infecção ativa;
  • Tratamento antimicrobiano.

 

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Referências:

1. Macedo FRM, Terra FDS, Dos Santos SVM, Ribeiro Miranda RP. PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO E EPIDEMIOLÓGICO DE CANDIDATOS DE A DOAÇÃO DE SANGUE. Arquivos de Ciência da Saúde 2015;22(4):87.

2. Anvisa. 8º Boletim Anual de Produção de Hemoterápica, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/sangue-tecidos-celulas-e-orgaos/producao-e-avaliacao-de-servicos-de-hemoterapia . Acesso: 28 de mar de 2022

3. Zhou J. A review of the application of autologous blood transfusion. Braz J Med Biol Res [Internet]. 1º de agosto de 2016 [citado 30 de março de 2022];49. Disponível em: http://www.scielo.br/j/bjmbr/a/fGMNrMhFpZNdS8nDpP3jksc/abstract/?lang=en

4. Brasil. Ministério da Saúde [Internet]. PORTARIA Nº 158. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2016/prt0158_04_02_2016.html Acesso em 06 de junho de 2022.

 

5. Ricci Junior, O et al. Manual Transfusional, Hemocentro de São José do Rio Preto, São José do Rio Preto, São Paulo, 3ª edição, 2019. 110 p.

 

 

 

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